cantata
penso que um dia falarão de mim
ou dos devaneios, das senis verdades
que esparramei pelo mundo afora,
talvez por astúcia, carência, ilusão,
conivência, medo, loucura, ambição;
confesso-lhes antes: foi tudo mentira!
- menti com receio de que acreditassem -
[pois em tudo criam até nos desmentidos!]
dirão que o disfarce foi o meu legado
e o silêncio duro do final de tarde
minha marca ambígua de poeta só.
isso porque disse o que quis sem ter
qualquer sentimento a tanger os ais
que se entrelaçavam nus nos entrenós
das vontades virgens feito colibris
(buscavam o néctar, o que nunca fiz)
ou porque os versos prenhes de saudade
permutei por outros sem razão nem fé!
acho que um dia zombarão de mim
deste meu descuido com o amanhã
dos desejos ocos, gris, acovardados
- eunucos comparsas da sabedoria -
dessa inconseqüência apoiada em nada,
traço que carreio na alma sem cor...
aliás sei que, um dia, quando fala e o ricto
fugirem enfim saberão que o verde
que cuspi no nimbo jamais existiu
era a maquiagem para enfeitar meu fim,
pois, se morre o poeta fica o que ele diz!
Escrito por mauriciorosa às 07h41
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