Blog do Maurício


ciclo
mauricio rosa

há tempos revolvo meu desassossego
em busca do nada que tanto exaspera,
meço caos e dúvidas, palpo devaneios,
rumino o vazio da minha existência
a caça do nexo que molda meu ser...
há tempos me pego pajeando as noites
cofiando as dores tentando encontrar
nos escombros partes do mosaico o fio
que une as distâncias do meu caminhar:
esse hiato ambíguo sem viço nem par!
há tempos me cato pelos descaminhos
disseco silêncios contemplando o luar
e desiludido torno à mesma estrada
que ontem me trouxe onde estou e estás.

Escrito por mauriciorosa às 13h55
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sem título

 

somente agora que já não possuo a ilusão nos pés

e os horizontes se vão tão voláteis como a luz e a fé

exangue se agarra aos restos insossos de luar sem cor

vislumbro o silêncio que dizia tanto quanto desmentia

os dizeres certos que no tempo havido não apreendi...

somente agora quando versos meto no bornal do fim

enclausuro medos apascento dores me encontro enfim

quando atiro ao vento gestos que ao tempo tento oferecer

rasgo nostalgias cirzo as fantasias no afã de as ver

quais sonhos antigos carreando os dias entre o ir e o vir

é que descubro atônito: o revés dos anos me deixou assim

sábio amargo austero velho cão de guarda a buscar em mim

o que nos tempos idos me causava tédio pela lentidão

com que caminhava pela minha pressa de menino ancião!



Escrito por mauriciorosa às 08h12
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cantata

 

penso que um dia falarão de mim

ou dos devaneios, das senis verdades

que esparramei  pelo mundo afora,

talvez por astúcia, carência, ilusão,

conivência, medo, loucura, ambição;

confesso-lhes antes: foi tudo mentira!

- menti com receio de que acreditassem -

[pois em tudo criam até nos desmentidos!]

 

dirão que o disfarce foi o meu legado

e o silêncio duro do final de tarde

minha marca ambígua de poeta só.

isso porque disse o que quis sem ter

qualquer sentimento a tanger os ais

que se entrelaçavam nus nos entrenós

das vontades virgens feito colibris

(buscavam o néctar, o que nunca fiz)

ou porque os versos prenhes de saudade

permutei por outros sem razão nem fé!

 

acho que um dia zombarão de mim

deste meu descuido com o amanhã

dos desejos ocos, gris, acovardados

- eunucos comparsas da sabedoria -

dessa inconseqüência apoiada em nada,

traço que carreio na alma sem cor...

aliás sei que, um dia, quando fala e o ricto

fugirem enfim saberão que o verde

que cuspi no nimbo jamais existiu

era a maquiagem para enfeitar meu fim,

pois, se morre o poeta fica o que ele diz!



Escrito por mauriciorosa às 07h41
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