Blog do Maurício


poente

© Maurício Rosa de Almeida

 

calçando teus segredos vago a esmo

atrás dos mesmos passos que deixaste

beijando as mesmas faces que beijaste

refém da mesma essência, de mim mesmo!

juntando meus pedaços cato os restos

dos teus esparramados pelos cantos;

aqueles, carcomidos, desconexos,

os outros, empunhando desencantos...

e além do vão das dores paira o mundo

olhando com desdém o latifúndio

que somos – é um gesto nobre! (?)

e a vida passa e sobre os ombros pesa

a mesma angústia fria do passado:

o véu da eternidade nos recobre?



Escrito por mauriciorosa às 06h43
[   ] [ envie esta mensagem ]




esfinge
© Maurício Rosa de Almeida


a promiscuidade do poeta com as palavras
beira ou cheira a insanidade
por vezes se deitam à sombra de um livro
se esfregam, contorcem, copulam, se entregam...
não raro se atracam num embate mortal
se mordem, se batem, se trocam no ar
da arena emotiva, pueril... surreal!
se vêem poetas vestidos de sonhos
bramindo palavras imersas em mel...
e outros, profetas, ninando demônios
tangendo o viés dos versos de cordel.
mas nada desponta melhor no cenário
desta insanidade que rapta o real
que o dom soberano de ter nas entranhas
o muco do bem e a essência do mal!

Escrito por mauriciorosa às 08h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




um poema escrito por mim


esílio
© Mauricio Rosa de Almeida

assunto os meandros do que sou
razão querer paixão medo pavor
um feixe de poréns além da cor
que esboça o semblante que vês;
reviro o baú dos meus segredos
idênticos àqueles que te acolhem:
a vasta imensidão que nos ampara
é a Noite que à tarde nos engole.
então que a vida passe e a lida possa
fazer desse degredo um paraíso
e o sol a escuridão, enfim, desfaça.
porque além do além há uma porta
- me disse alguém – e nela tantas outras
capazes de acolher a face morta.

Escrito por mauriciorosa às 07h59
[   ] [ envie esta mensagem ]




outra pérola - vale a pena ouvir



Chico Buarque - João e Maria
Sivuca - Chico Buarque

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim





Escrito por mauriciorosa às 07h51
[   ] [ envie esta mensagem ]




vale a pena ouvir essa pérola
chico e nana - é muita munição

Nana Caymmi - Até Pensei
Chico Buarque

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caía
Toda maçã nascia

E o dono do bosque nem via
do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha

Que, de tolo
Até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
A dona dos olhos nem via

Do lado de lá tanta aventura
E eu a esperar pela ternura
Que enganar nunca me vinha
Eu andava pobre
Tão pobre de carinho

Que, de tolo
Até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até pensei que fosse minha

Escrito por mauriciorosa às 07h17
[   ] [ envie esta mensagem ]




Fernando Pessoa


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933



Escrito por mauriciorosa às 19h02
[   ] [ envie esta mensagem ]




uma pérola da literatura mundial


Se
Rudayard Kipling


Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!

Escrito por mauriciorosa às 18h57
[   ] [ envie esta mensagem ]




que grandes poetas temos...



Esse punhado de ossos

Ivan Junqueira
A Moacyr Felix


Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.



Escrito por mauriciorosa às 17h50
[   ] [ envie esta mensagem ]




eterno Quintana

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mário Quintana
(in Esconderijos do Tempo)

Escrito por mauriciorosa às 17h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Depois de quase cinco anos sem escrever nada... hoje consegui.

adágio

apressa que a vida passa
e presa à pressa repassa
o nada ao amanhã
depressa te lava e leva
aquele segredo à calva
verdade sem corpo, anã!

no verso o acaso, escara,
o resto, o poeta mascara.

mauricio rosa
fevereiro de 2007


Escrito por mauriciorosa às 17h20
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Sudeste, UBERLANDIA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Livros, literatura
MSN -
Histórico
  07/09/2008 a 13/09/2008
  03/08/2008 a 09/08/2008
  06/07/2008 a 12/07/2008
  29/06/2008 a 05/07/2008
  22/06/2008 a 28/06/2008
  08/06/2008 a 14/06/2008
  25/05/2008 a 31/05/2008
  18/05/2008 a 24/05/2008
  29/04/2007 a 05/05/2007
  18/02/2007 a 24/02/2007


Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog