Blog do Maurício


Loucura
© mauricio rosa


Renuncio, hoje, àquela esperança
De ser marinheiro e bolinar o mar,
Ficarei apenas com a triste sina
De alinhavar a solidão do ser...
A amada deixo esperando à porta:
O amigo, aquele velho cão, a mala,
Tudo fica. Parto. Nada mais importa.
A eloqüente fala de poeta, castro!
Amanhã, espero, quando o sol raiar
Não ter mais aonde ancorar a dor
Amores dispenso, já tive bastantes,
Cada qual com sua ilusão na cor!
Partirei sozinho rumo à fantasia
Que na noite fria vem me acalentar.



Escrito por mauriciorosa às 15h59
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sem título

© mauricio rosa

 

seremos tão eternos quanto sós

e dentro do que formos, vagos, nus,

os nossos sentimentos sorverão

o peso que permeia nossa cruz!

diz, quanto sofrimento cuspirá

o mundo nos nossos olhos azuis?

centenas de milhares talvez mais

- o céu da eternidade nos dirá! –

e nada mais senão um verso frio

o nosso epitáfio guardará:

passamos, como o raio o sonho e o rio

depressa, de repente, rumo ao mar...

alguns aplaudirão, outros com frio

as dores tentarão agasalhar.



Escrito por mauriciorosa às 16h09
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fim de caso

 

 

não sei se o silêncio ardido

aquela malquerença

por detrás da voz

ou restos de saudades nuas

vistas pelos cantos

jogadas, sem foz...

quem sabe aquela frase amarga

dita quando a porta entreaberta ouviu

segredos fincados no tempo

cerne de lamentos

confissões senis!

talvez aquele antigo grito

refém

comedido

amordaçado

algoz

será que foi o desalento

metido no vento

que nos delatou?

não sei

apenas sinto agora à volta

que não mais te encontro

que o amor partiu

levando no bornal o cio

e no gesto frio

a paixão sem nós;



Escrito por mauriciorosa às 01h58
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nódoa

© mauricio rosa 2008

 

o senhor do meu segredo

aquele mago silente

que grita dentro de nós

um certo dia me disse:

“no verso se esconde o viço

que desatará teus nós!”

desde então me vasculho

caço essência no obscuro

da alma que aprisiono,

em vão, pois a vida passa

e cada vez mais esparsa

se torna minha ilusão.

- a voz do bruxo prossegue

tatuada em meus desvãos!



Escrito por mauriciorosa às 07h22
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à la Bandeira
mauricio rosa


aquilo ali na calçada
embrulhado no jornal
cheirando a náusea e desprezo
vivendo às custas do céu
há algum tempo não come
fuma
xinga
bebe
dorme (?)
atrapalha o transeunte
cospe mágoas no bornal
aguarda o último bonde
que destino levou...

é o retrato do mal...
negro pedaço de nós!


Escrito por mauriciorosa às 16h43
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A chave

© mauricio rosa 2008

 

Confesso que poderia

Dar guarida a outros ventos

Permitir-me desalentos

Sem medo de me perder

Mas resolvi ser prudente

Medir o compartimento

Do meu querer sem saber

Que da existência somente

Um naco o homem vê

O resto se esconde entre

O porvir e o entardecer

nas lantejoulas douradas

que o poeta chama de sonhos

e o profeta de porquês.



Escrito por mauriciorosa às 07h14
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simetria
© mauricio rosa 2008

de pardos saberes enche o ser a vida
amontoa planos sobre a terra fria
e quando soçobra descobre que ávida
foi a esperança descartada ainda
sob a opacidade dos primeiros dias...
de angústia se molha porque poderia
conhecer-se mais, à luz dar guarida,
aplainar rancores, confessar pesares,
peneirar os prantos ou curar feridas
mas tornou-se presa de suas medidas!
do homem é o tempo e suas mazelas
seus feitos e ditos, sofreres, bonança
e do Caos Eterno a foice que espanta
do sábio que vela ao servo que planta.


Escrito por mauriciorosa às 15h50
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ciclo
mauricio rosa

há tempos revolvo meu desassossego
em busca do nada que tanto exaspera,
meço caos e dúvidas, palpo devaneios,
rumino o vazio da minha existência
a caça do nexo que molda meu ser...
há tempos me pego pajeando as noites
cofiando as dores tentando encontrar
nos escombros partes do mosaico o fio
que une as distâncias do meu caminhar:
esse hiato ambíguo sem viço nem par!
há tempos me cato pelos descaminhos
disseco silêncios contemplando o luar
e desiludido torno à mesma estrada
que ontem me trouxe onde estou e estás.

Escrito por mauriciorosa às 13h55
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sem título

 

somente agora que já não possuo a ilusão nos pés

e os horizontes se vão tão voláteis como a luz e a fé

exangue se agarra aos restos insossos de luar sem cor

vislumbro o silêncio que dizia tanto quanto desmentia

os dizeres certos que no tempo havido não apreendi...

somente agora quando versos meto no bornal do fim

enclausuro medos apascento dores me encontro enfim

quando atiro ao vento gestos que ao tempo tento oferecer

rasgo nostalgias cirzo as fantasias no afã de as ver

quais sonhos antigos carreando os dias entre o ir e o vir

é que descubro atônito: o revés dos anos me deixou assim

sábio amargo austero velho cão de guarda a buscar em mim

o que nos tempos idos me causava tédio pela lentidão

com que caminhava pela minha pressa de menino ancião!



Escrito por mauriciorosa às 08h12
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cantata

 

penso que um dia falarão de mim

ou dos devaneios, das senis verdades

que esparramei  pelo mundo afora,

talvez por astúcia, carência, ilusão,

conivência, medo, loucura, ambição;

confesso-lhes antes: foi tudo mentira!

- menti com receio de que acreditassem -

[pois em tudo criam até nos desmentidos!]

 

dirão que o disfarce foi o meu legado

e o silêncio duro do final de tarde

minha marca ambígua de poeta só.

isso porque disse o que quis sem ter

qualquer sentimento a tanger os ais

que se entrelaçavam nus nos entrenós

das vontades virgens feito colibris

(buscavam o néctar, o que nunca fiz)

ou porque os versos prenhes de saudade

permutei por outros sem razão nem fé!

 

acho que um dia zombarão de mim

deste meu descuido com o amanhã

dos desejos ocos, gris, acovardados

- eunucos comparsas da sabedoria -

dessa inconseqüência apoiada em nada,

traço que carreio na alma sem cor...

aliás sei que, um dia, quando fala e o ricto

fugirem enfim saberão que o verde

que cuspi no nimbo jamais existiu

era a maquiagem para enfeitar meu fim,

pois, se morre o poeta fica o que ele diz!



Escrito por mauriciorosa às 07h41
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surreal

            para Frô

 

 

por que não velas as valas

e te esqueces das senzalas

- quereres nus sem mortalha -

onde enclausuram teus dias?

por que pavores recrias

se a manhã apascenta

teus passos e as nostalgias

esparramados no tempo?

por que sonhares distintos

se o teu é o que pressinto

no peito guardado há muito

- cheiro acre de absinto!

por que paixão sem pesares

se no recôndito dos mares

sofre a alma peregrina

ante o mundo por se ver?

por que se guardam poesias

voláteis dentro do nada

e o emasculado desejo

de ser um dia feliz

se breve a vida se escoa

pelo chafariz profundo

e leva os porquês consigo?



Escrito por mauriciorosa às 10h08
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fragrância
© mauricio rosa

o teu silêncio vestia
completamente a angústia
apalpava-me os anseios
incitava devaneios
sujava o céu dos meus dias
e quando a lua sem brilho
anciã jazia oculta
por detrás do meu cansaço
balbuciava um segredo
cofiava o vão dos medos
e se deixava antever
nos desvãos da pradaria...

não que quisesse teu corpo
porque teu cheiro bastava!

Escrito por mauriciorosa às 17h43
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à la Quintana
© mauricio rosa

porque a vida é só isso:

um imenso bolo de acasos
polvilhado de poréns.


Escrito por mauriciorosa às 15h48
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Recado
Ao Fred Matos

© mauricio rosa

É um pequeno poema
Simples, diria, um rabisco
Sem rima nem escansão
Dedicado a ti, amigo...
Assustarás, zombarão
Dirão que é um escárnio
Dedicar isso a alguém
Querido, de velha data.
Mas, cá, lê-me até o fim
Que numa miúda nota
me explico ao poeta:
“este discurso é tão breve
De envergadura tacanha
Posto que é complemento,
Aposto ao grande apreço
Que te confiro faz tempo!".

Escrito por mauriciorosa às 12h35
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moenda
© mauricio rosa

feito de ocasos vadios o nobre bardo se vê
amontoando nos cantos versos paridos a sós,
buquês de angústia vestidos, coloridos caracóis
juntados num mar de sonhos e ofertados à foz!
que guarda essa alma infante além da dicotomia?
suores de outros tempos? a noite roendo o dia?
o barulho atroz do tédio? o coito da maresia
que náusea causa ao cérebro na forma de poesia?
que causa mais caberia nas coisas que o poeta
em transe enfim confessa qu’inda ontem existia?
que gesto divino encerra essa imensidão tão fria?
que razão ampara a morte? e a sorte? e o vão da Cria?
que olho vesgo o espreita quando acorda e se depara
com esse mundo vazio que se esconde atrás de nós?


Escrito por mauriciorosa às 16h04
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